Consiliência e a possibilidade do neurodireito: da desconfiança à reconciliação disciplinar

Thaís de Bessa Gontijo de Oliveira, Renato Cesar Cardoso

Resumo


O artigo tem por objetivo revisitar a origem do afastamento disciplinar que ocorre entre as Ciências Naturais, Ciências Sociais e Humanidades. Esse afastamento levou ao atual modelo de hiperespecialização que, embora tenha impulsionado um notável avanço em cada uma das disciplinas, teve como consequência a fragmentação do próprio conhecimento e a perda da coerência entre cada uma dessas partes. Esse modelo mostra sinais de esgotamento, já que não é capaz nem enfrentar questões filosóficas fundamentais, nem tampouco de apresentar soluções satisfatórias para os grandes problemas humanos de contemporâneos. Nesse contexto, apresenta-se a Consiliência, que propõe a recuperação da coerência entre todos os ramos do conhecimento, tanto na tarefa de conhecer nossa própria humanidade, quanto na tarefa de apresentar respostas a esses grandes problemas. Como conclusão, percebeu-se que, para o Direito, esse movimento de aproximação pode ter consequências disruptivas, já que as explicações das Ciências Cognitivas para o comportamento humano podem desafiar noções fundamentais com as quais o Direito opera. Equacionar tudo isso é a tarefa que atribui-se ao Neurodireito. A originalidade do artigo reside na recuperação das origens para o afastamento disciplinar, e as razões para sua superação, sempre dentro do contexto do Direito. Essa revisão evidenciou a tarefa de tornar todo esse conhecimento coerente, ou consiliente. Dentro das Ciências Jurídicas, essa é a tarefa do Neurodireito.

Palavras-chave


Neurodireito; Neuroética; Consiliência

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DOI: http://dx.doi.org/10.5102/rbpp.v8i2.5340

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